Todo endereço de e-mail do mundo tem esse símbolo no meio. Ele é tão natural ali que parece ter sido inventado para isso. Não foi: quando o e-mail surgiu, o arroba já era um símbolo antigo, meio esquecido, que sobrevivia no teclado por inércia comercial.
A escolha dele foi uma decisão de engenharia tomada em poucos minutos, e o critério não tinha nada de poético.
O problema de 1971
Ray Tomlinson trabalhava na ARPANET, a rede que antecedeu a internet. Mensagens entre pessoas já existiam, mas só funcionavam dentro do mesmo computador: dois usuários da mesma máquina trocavam recados num arquivo compartilhado.
Tomlinson queria mandar mensagem para alguém numa máquina diferente. E aí apareceu um problema de notação: como escrever um destinatário que identificasse, ao mesmo tempo, quem é a pessoa e onde ela está?
Era preciso um separador. E ele tinha que obedecer a três condições bem específicas.
Os três critérios
O símbolo precisava:
- Existir no teclado dos terminais da época, que tinham bem menos teclas do que os de hoje.
- Não aparecer em nomes de pessoas nem de computadores, para nunca ser confundido com parte do nome.
- Fazer sentido semântico, idealmente significando algo como em ou na.
O arroba passava nos três. Estava no teclado porque vinha das máquinas de escrever comerciais, quase não era usado em nada, e em inglês já era lido como at, que é exatamente a preposição certa: fulano at tal máquina.
Tomlinson contava que a escolha foi quase óbvia justamente porque o símbolo era inútil para qualquer outra coisa. Era o caractere disponível.
De onde o símbolo vinha
Antes de 1971, o arroba era um sinal do comércio. Em listas de preço, significava à razão de: dez unidades @ cinco reais cada.
A origem é mais antiga e menos certa. A hipótese mais aceita entre paleógrafos é que ele tenha nascido como abreviação manuscrita em documentos medievais, com escribas unindo letras numa só marca para ganhar tempo. Há registros do símbolo em documentos comerciais ibéricos de séculos atrás.
Por que em português ele se chama arroba
Essa parte é nossa, e é a mais curiosa. Em inglês o símbolo é lido como at sign, uma descrição funcional. Em português ele tem nome próprio, e o nome é uma unidade de peso.
A arroba equivale a cerca de 15 quilos, e ainda hoje é usada no mercado de gado: compra-se boi por arroba. O símbolo era a abreviação dessa medida em documentos comerciais, e o nome da medida grudou no desenho.
Ou seja: quando um brasileiro dita um e-mail e fala arroba, está usando o nome de uma unidade de peso de origem árabe para descrever um separador de rede escolhido por um engenheiro americano. O acaso é completo.
Cada idioma viu um bicho diferente
Boa parte dos idiomas não tinha nome para o símbolo e resolveu pela aparência, quase sempre descrevendo um animal enrolado:
- Holandês: apenstaartje, rabinho de macaco
- Italiano: chiocciola, caracol
- Alemão: Klammeraffe, macaco agarrado
- Dinamarquês: snabel-a, o a com tromba
- Grego: papaki, patinho
É um caso raro em que o mundo inteiro adotou o mesmo símbolo e quase ninguém adotou o mesmo nome.
O detalhe que sobreviveu
O formato criado naquele dia continua exatamente igual cinquenta e cinco anos depois: identificador da pessoa, separador, identificador da máquina. Mudou tudo ao redor, da ARPANET para a internet, dos terminais para o celular, e a notação não mudou uma vírgula.
Vale notar o que isso diz sobre decisões técnicas: a que mais durou na história da comunicação digital foi tomada em minutos, por um critério modesto, com o símbolo que sobrava no teclado.



